Porque a gasolina no Brasil custa o que custa?

Débito ou crédito? Normalmente, esse é um questionamento muito comum no dia a dia das pessoas que abastecem automóveis, todavia, a experiência, financeiramente falando, não é das mais agradáveis.

Muitos são os questionamentos a respeito do preço cobrado pela commodity aqui no Brasil, especialmente, após a eclosão da greve dos caminhoneiros, crise que provocou conturbações em todo o território nacional, cujas consequências são sentidas até hoje.

Mesmo sendo um produto globalizado, vendido em todo o mundo, a gasolina e seus derivados possuem condições de comercialização impressionantemente distintas em cada país, submetendo-se a regimes econômicos e de tributação bastante específicos.

Sendo tema recorrente em conversas informais, alem de notícia cotidiana na grande mídia, no artigo de hoje, faremos uma reflexão sobre o valor cobrado pela gasolina e pelo óleo diesel aqui no Brasil.

Mostraremos o valor cobrado em outros países, refletiremos sobre a produção nacional e o processo de exportação, a oferta do mercado internacional e os fatores do mercado brasileiro que regulam o valor da oferta em nosso mercado.

Esperamos auxiliá-lo (a) a compreender os fatores que influenciam a formação de preços no mercado brasileiro, além de apresentar uma visão global acerca do valor praticado em outros países, fatores importantes de consumo e regulação de mercado.

Para facilitar sua navegação neste artigo, sugerimos consultar o índice abaixo. Assim, você poderá conhecer mais a respeito dos temas abordados no artigo, além de esclarecer rapidamente suas dúvidas. Tenha uma excelente leitura!

  • Origem dos dados deste artigo
  • Em quais países a gasolina é mais cara?
  • Em quais países a gasolina é mais barata?
  • Porque existem diferenças nos preços entre os países?
  • Qual a lógica de preços da gasolina no Brasil?
  • Como é formado o preço da gasolina?
  • Como é formado o preço pago na bomba?
  • E o diesel?
  • Mas o Brasil não é auto-suficiente em petróleo?
  • Não existe somente um tipo de petróleo
  • Mas, qual a lógica de exportar e importar petróleo?
  • O que pode ser feito para mudar o cenário?

Origem dos dados deste artigo

Os dados utilizados neste artigo, referentes à precificação do combustível no Brasil e nos países que serão citados no desenvolvimento deste escrito, bem como do óleo diesel, foram extraídos do site da consultoria Global Petrol Prices.

A Global Petrol Prices é uma entidade que publica dados abrangentes e confiáveis ​​sobre os preços de alguns segmentos de combustível (gasolina, óleo diesel, etc.) no varejo em todo o mundo, acompanhando mais de 150 países semanalmente.

Gostaríamos de destacar ainda que as informações de preço utilizadas neste artigo referem-se à última publicação informativa da consultoria, no formato de relatório, ocorrida no dia 27/08/2018, segunda-feira.

Em quais países a gasolina é mais cara?

Por incrível que pareça, o valor cobrado pela gasolina no Brasil está abaixo da média mundial. A média mundial, isto é, o preço médio cobrado pelo litro da gasolina no mundo é de 1,17 dólares, isso, na semana do dia 27/08/2018.

No Brasil, o valor praticado no mercado, no mesmo período (semana do dia 27/08), foi de 1,09 dólares pelo litro da commodity. Todavia, a consultoria apresenta os dados para o Brasil desde o dia 21 de maio de 2018.

Considerando o período entre os dias 21 de maio e o dia 27 de agosto deste ano, o valor médio cobrado no Brasil pelo litro da gasolina foi de R$ 4,49, com mínimo de R$ 4,28 em 21 de maio, e um máximo de R$ 4,61 em 4 de junho.

Para efeito de comparação, o preço médio cobrado pela gasolina no restante do mundo, para o mesmo período citado, foi de R$ 6,49. Isso mostra que, em uma análise simplificada, o valor cobrado pela gasolina em nosso país está abaixo da média global.

Devemos considerar ainda, que a cotação do dólar impacta diretamente nos valores reproduzidos acima, mais especificamente nesta semana, onde a cotação tem apresentado um viés de alta em função de diversos fatores internos, bem como a situação de fragilidade econômica apresentada pela Argentina.

Dentre as 218 economias analisadas, algumas com atualizações semanais, outras com dados sendo atualizados mensalmente, o Brasil ocupa a 88ª posição dentre aquelas onde a commodity custa mais barato.

Isso mostra que em 130 países, o valor cobrado pela gasolina é mais caro do que em nosso país. Contudo, não podemos centralizar nossa análise somente nesse tipo de informação.

Abaixo, encontra-se uma lista com os quatro países onde o valor cobrado pela gasolina situa-se na faixa mais cara do estudo realizado pela consultoria, em outras palavras, os quatro países que apresentam os maiores valores do mundo praticados pela gasolina.

Em quais países a gasolina é mais barata?

Como mostramos, a gasolina no Brasil não é a mais cara do mundo. Para efeito de análise, utilizaremos a mesma metodologia aplicada anteriormente, todavia, a partir de agora, relacionando-a aos países onde os menores custos foram identificados.

Além disso, iremos utilizar os mesmos dias e intervalos de tempo que utilizamos na apresentação referente aos países onde a gasolina apresenta os valores mais caros do planeta, a saber, dia 27 de agosto, e o intervalo entre os dias 21 de maio e 27 de agosto deste ano (2018).

Ademais, os valores observados no período supracitado, referentes à média em reais, e as variações maiores e menores relativas ao preço da gasolina no Brasil, permanecem inalterados para a listagem dos quatro países onde o produto apresenta os menores preços do mundo.

Se considerarmos o país onde o litro cobrado pela gasolina é o mais barato do mundo (Venezuela – 0,01 centavo de dólar) e compararmos com o país onde o litro da commodity é o mais caro do mundo (Hong Kong – 2,16 dólares) perceberemos uma grande diferença (2,15 dólares por litro abastecido). Mas, porque isso acontece?

Porque existem diferenças no preço entre os países?

Como regra geral, os países mais ricos têm preços mais altos, enquanto os países mais pobres e aqueles que produzem e exportam petróleo têm preços significativamente mais baixos. No entanto, há uma diferença substancial nesses preços entre os países.

Uma exceção notável é a dos Estados Unidos (EUA), que é um país economicamente avançado, mas, possui baixo preço praticado pelo litro da gasolina, a saber, 0,83 centavos de dólar.

As diferenças nos preços entre os países se devem aos vários impostos e subsídios incidentes sob a gasolina. Todos os países têm acesso aos mesmos preços do petróleo nos mercados internacionais.

Todavia, a tributação entre as várias economias comparadas e apresentadas no relatório é consideravelmente distinta. Como resultado, o preço de varejo da gasolina é diferente.

Mas, além dessas explicações que lhe apresentamos, analisaremos com mais cuidado a situação do Brasil, país que, dos demais listados no relatório é aquele que mais nos interessa no momento.

Qual a lógica de preços da gasolina no Brasil?

No Brasil, as políticas de preço são controladas pela Petrobras, empresa de economia mista cujo acionista majoritário é o Governo do Brasil, além de estarem sujeitas as mudanças econômicas, políticas e sociais.

No Governo de Dilma Rousseff, por exemplo, a Petrobras aplicava reajustes de preços com uma periodicidade maior, enquanto que na gestão Temer, a empresa assumiu uma nova política de preços de ajustes periódicos de acordo com a dinâmica dos mercados nacional e internacional, além das flutuações do dólar.

Mas, da composição final do preço cobrado pelo litro da gasolina, encontrado nas bombas espalhadas Brasil afora, qual a porcentagem de lucratividade da Petrobras? Quais agentes fazem parte da cadeia de distribuição da gasolina? É o que vamos entender agora!

Como é formado o preço da gasolina?

Para demonstrarmos a formação do preço da gasolina, utilizaremos um preço médio por litro de R$ 4, 212, tendo como referência dados da própria Petrobras, da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e da CEPEA/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada).

Do total, 28%, o equivalente a R$ 1, 179, fica para a Petrobras, 29% diz respeito à incidência de ICMS, o que em reais equivale a R$ 1, 221, 16% atribui-se ao recolhimento da CIDE e PIS/PASEP e COFINS, em reais a porcentagem representa R$ 0, 674, 14% refere-se à distribuição e a revenda da commodity, o equivalente a R$ 0, 589 e 13% é o custo do etanol anidro, componente misturado à gasolina, em reais o equivalente a R$ 0, 547.

Como é formado o preço pago na bomba?

Os postos de gasolina repassam ao consumidor final os custos de toda a cadeia do combustível. Portanto, o preço final da commodity é composto por quatro parcelas, a saber: remuneração do produtor ou importador, custo do etanol anidro, tributos (ICMS, PIS/PASEP e COFINS e CIDE) e margens de distribuição e revenda.

O processo de precificação começa na chegada da gasolina aos distribuidores vindo das refinarias, sejam operações da Petrobras ou privadas. Além da gasolina comprada pura, as distribuidoras também compram de usinas específicas o etanol anidro.

O etanol anidro é misturado à gasolina que será vendida posteriormente ao consumidor, em proporções determinadas por legislação. Atualmente, o percentual de etanol anidro por litro de gasolina é de 27%.

Em seguida, essa “nova gasolina” é então comercializada com os postos que estabelecem o preço cobrado pelo litro da commodity nas bombas, evidentemente que contabilizando sua margem de lucro.

Na imagem abaixo, mostramos a cadeia de distribuição do combustível das refinarias até o consumidor final, a começar da produção interna.

E o diesel?

No caso do óleo diesel, a Petrobras fica com cerca de 49% do total que os consumidores pagam por litro nas bombas, segundo dados da própria companhia.

Do restante, 15% referem-se à fatia de distribuição e revenda, 16% ICMS, 14% CIDE, PIS/PASEP e COFINS e 6% custo do biodiesel (cada litro de diesel recebe adição de 8% de biodiesel).

Promoveremos algumas reflexões, a partir de agora, relacionadas a determinadas características do mercado brasileiro.

Mas o Brasil não é auto-suficiente em petróleo?

Após as descobertas no pré-sal, o Brasil tornou-se auto-suficiente na produção de petróleo. O volume extraído hoje é de aproximadamente 2,6 milhões de barris por dia, o que em tese, seria capaz de atender a necessidade doméstica por combustível.

Todavia, na prática, o Brasil ainda importa petróleo e derivados. Inclusive, nos últimos anos o volume importado aumentou. Mas, sendo auto-suficiente, porque isso acontece e não o contrário?

Não existe somente um tipo de petróleo

É muito natural pensarmos que só existe um tipo de petróleo, afinal de contas, por se tratar de uma commodity, as ofertas disponíveis no mercado não apresentam diferenças significativas, não é mesmo?

Todavia, a resposta não é tão simples assim. A verdade é que existem diferentes tipos de petróleo ao redor do mundo, tanto em questão de densidade quanto em composição de hidrocarbonetos, composto químico constituído por átomos de carbono e hidrogênio

Basicamente, existem dois tipos de petróleo, o leve e o pesado. O petróleo leve possui cadeias carbônicas menores e mais leves, ou seja, são mais fáceis de serem quebradas. Esse tipo de petróleo é ideal para a produção de gasolina e outros derivados nobres.

Já o petróleo do tipo pesado possui cadeias de carbono maiores e mais pesadas, isto quer dizer que elas são mais difíceis de serem quebradas e transformadas em outros produtos e subprodutos. Esse tipo de petróleo é usado principalmente para fazer asfalto e combustível de máquinas.

E é justamente o petróleo do tipo pesado que, em maior parte, constituí a commodity disponível em nosso país. Então, o Brasil realmente é auto-suficiente em petróleo, contudo, não em capacidade de produção de derivados, justamente, pela qualidade do petróleo mais abundante por aqui.

Mas, qual a lógica de exportar e importar petróleo?

Como mostramos, a maior parte do petróleo brasileiro é do tipo pesado. Esse tipo de petróleo, além de possuir menor valor de comercialização, necessita de maiores investimentos para produção de gasolina e derivados.

Em suma: o petróleo brasileiro, majoritariamente falando, é o de menor qualidade, todavia, produzimos também o de maior qualidade, o petróleo leve, só que em proporções muito baixas (insuficientes). Vale dizer que os investimentos necessários para extrair gasolina e derivados do petróleo pesado são muito grandes.

Além disso, as refinarias brasileiras, em sua maioria, são configuradas para processar o petróleo leve. Sendo assim, pela insuficiência de petróleo leve, somada a estrutura instalada para o refino da commodity, o país precisa importar o óleo leve, misturá-lo ao óleo pesado e refiná-lo logo em seguida.

O restante do óleo pesado que sobra do processo de mistura entre os óleos (leve e pesado) é comercializado no mercado internacional através da exportação. É importante ressaltar que o produto exportado é o óleo bruto que não refinamos aqui.

A diferença média de preço desse óleo (bruto), para um barril de petróleo leve e um de petróleo pesado é de cerca de 40%. Em resumo, importamos petróleo leve, que é mais caro, e exportamos petróleo bruto, que é mais barato.

O que pode ser feito para mudar o cenário?

Para que a balança comercial seja superavitária, quer dizer, para que o Brasil exporte mais e importe menos, necessariamente, a mudança passa pelo refino da commodity em nosso país.

Investimentos em tecnologias próprias e com longa durabilidade, capazes de refinar corretamente o óleo pesado produzido pelo Brasil e transformá-lo em derivados nobres e utilizáveis no mercado nacional, além de exportar o excedente em preço maior do que o atual, dado a superioridade deste produto (petróleo leve) em relação ao petróleo pesado, seria uma medida plausível.

Outra alternativa, contudo de longo prazo, que merece análise e investimentos é a adoção de combustíveis alternativos e ecologicamente corretos. Além de auxiliarem na diminuição da poluição, poderiam ser mais eficientes em termos financeiros e energéticos, como exemplo, podemos citar a ampliação do uso de etanol, as células de hidrogênio, os carros elétricos, dentre outros.

Ainda, a lucratividade dos elos da cadeia poderia ser regulada e fiscalizada para que, de fato, exista uma precificação justa no mercado brasileiro e que se garanta o cumprimento de diretrizes estabelecidas.

Outro fator da mais alta importância, talvez o mais relevante, está na revisão urgente dos tributos que incidem sobre os combustíveis, responsáveis por uma parte significativa do seu preço.

Mais um aspecto que colabora para o encarecimento da gasolina é a diminuição do poder de compra das famílias, empresas e demais organizações que dependem diretamente da logística, como todo nosso país, que é afetado pelas flutuações do custo dos combustíveis.

Por fim, indiretamente, com a adoção da tabela de fretes mínimos, o mercado repassará os custos ao cliente final. Certamente, mais uma onda de aumento no preço da gasolina ocorrerá, dado o frete necessário ao seu transporte.

Quanto ao óleo diesel, acaba de surgir à informação de um aumento de 13% hoje, dia 31/08/2018, quanto ao seu valor de comercialização.

Conclusão

Mas a gasolina é cara ou não é? Alguns dirão que isso é subjetivo, quer dizer, a resposta dependerá da condição financeira dos consumidores e isso, em certo sentido, é realmente verdade.

Contudo, existem outros fatores que compõem a conta e auxiliam no encarecimento da commodity que podem e dever ser controlados pelo poder público, a saber, a concorrência, a formação de cartéis e a ganância de alguns comerciantes.

Fora isso, a própria incapacidade gerencial do estado, relacionada à alocação de investimentos verdadeiramente efetivos, é fator que precisa ser ressaltado.

Todavia, a estrutura operacional limitada para o refino do petróleo pesado, a nova política de preços da Petrobras que privilegia o mercado externo direcionado pelo dólar e outras variáveis, como a incidência de tributos sob a commodity, são aspectos que precisam e devem ser revisitados estrategicamente.

Agora que você aprendeu mais sobre a gasolina do Brasil, descubra qual a diferença entre monitoramento e rastreamento e esclareça suas dúvidas a respeito destas importantes atividades para gestão de transporte.

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